Pesquisadores descobriram uma bactéria ancestral preservada por cerca de 5 mil anos em uma caverna de gelo na Romênia — e o achado chama atenção por um motivo alarmante: o microrganismo já apresenta resistência a antibióticos usados na medicina moderna.
A descoberta ocorreu durante escavações na caverna de gelo de Scarisoara, onde cientistas identificaram a cepa Psychrobacter SC65A.3, pertencente ao gênero Psychrobacter e altamente adaptada a temperaturas extremas. A bactéria tem potencial para infectar humanos e animais, segundo os pesquisadores.
Além do risco, os estudos indicam que o microrganismo pode ajudar a entender como os mecanismos de resistência bacteriana surgiram ao longo da evolução e abrir caminhos para novas aplicações biotecnológicas.
“O estudo de micróbios como a Psychrobacter SC65A.3, recuperada de depósitos de gelo em cavernas milenares, revela como a resistência a antibióticos evoluiu naturalmente no ambiente, muito antes do uso de antibióticos modernos”, aponta uma das autoras do estudo, Cristina Purcarea, em comunicado.
A pesquisa foi conduzida pelo Instituto de Biologia de Bucareste, da Academia Romena, e os resultados foram publicados nesta segunda-feira (16/2) na revista científica Frontiers in Microbiology.
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Como a bactéria foi encontrada
Os cientistas extraíram um núcleo de gelo com 25 metros de profundidade dentro da caverna. Os fragmentos foram armazenados em sacos esterilizados e mantidos congelados até chegarem ao laboratório, para evitar qualquer contaminação externa.
Em ambiente controlado, a cepa foi isolada e teve seu genoma sequenciado. O objetivo era identificar os genes responsáveis pela sobrevivência em condições extremas e pela resistência antimicrobiana.
Resistência a antibióticos atuais
Nos testes laboratoriais, a bactéria foi exposta a 28 antibióticos de 10 classes diferentes. O resultado: resistência a 10 medicamentos, incluindo rifampicina, vancomicina e ciprofloxacina — fármacos usados no tratamento de tuberculose, colite e infecções urinárias.
O estudo também registrou resistência a antibióticos como trimetoprima, clindamicina e metronidazol, usados contra infecções pulmonares, cutâneas, sanguíneas e do sistema reprodutivo.
A hipótese dos pesquisadores é que microrganismos adaptados a ambientes gelados podem carregar sequências específicas de DNA que ajudam a neutralizar o efeito de antibióticos.
“Se o derretimento do gelo liberar esses micróbios, esses genes podem se espalhar para bactérias modernas, agravando o desafio global da resistência a antibióticos”, alerta a autora do estudo.
Potencial científico e biotecnológico
Apesar dos riscos, a descoberta também abre oportunidades para a ciência. As enzimas e compostos antimicrobianos produzidos pela bactéria podem inspirar o desenvolvimento de novos antibióticos e tecnologias médicas mais eficazes.
Ao todo, cerca de 600 genes da cepa ainda estão sendo analisados, além de outros 11 genes com potencial para eliminar ou impedir o crescimento de bactérias, fungos e vírus.
“Essas bactérias antigas são essenciais para a ciência e a medicina, mas o manuseio cuidadoso e as medidas de segurança em laboratório são essenciais para mitigar o risco de disseminação descontrolada”, conclui Cristina.


