O Ministério da Educação (MEC) anunciou que cerca de 30% dos cursos de medicina avaliados em 2025 poderão sofrer punições administrativas após resultados considerados insatisfatórios no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica). A medida integra uma estratégia de supervisão para elevar a qualidade da formação médica no Brasil e frear a expansão de cursos com baixo desempenho acadêmico.
Criado pela Portaria MEC nº 330/2025, o Enamed passou a funcionar como uma modalidade específica do Enade para medicina, com aplicação anual e participação obrigatória dos estudantes concluintes. A prova conta com 100 questões objetivas, elaboradas com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais, e foi aplicada em mais de 200 municípios em todo o país.
Resultados do Enamed 2025 expõem desigualdade entre instituições
Apesar de 75% dos participantes terem alcançado desempenho considerado proficiente, os resultados revelaram grandes disparidades entre as instituições de ensino. Universidades federais e estaduais registraram índices superiores a 80% de proficiência, enquanto cursos municipais e privados com fins lucrativos concentraram os piores desempenhos.
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Dos 351 cursos de medicina avaliados, 304 pertencem ao Sistema Federal de Ensino, que inclui instituições federais e privadas — único grupo sobre o qual o MEC tem poder direto de supervisão. Nesse universo, 99 cursos (32,6%) ficaram nas faixas 1 e 2 do Conceito Enade, classificadas como insatisfatórias, por apresentarem menos de 60% dos estudantes com desempenho adequado.
Cursos de medicina com baixo desempenho sofrerão sanções escalonadas
Os cursos enquadrados nas faixas críticas passarão por processo administrativo de supervisão, com direito à ampla defesa. No entanto, medidas cautelares já poderão ser aplicadas, conforme o nível de proficiência obtido no Enamed:
- Abaixo de 30% de proficiência (8 cursos):
Proibição de aumento de vagas, suspensão do Fies, avaliação de outros programas federais e suspensão de novos ingressos; - Entre 30% e 40% (13 cursos):
Redução de 50% das vagas autorizadas; - Entre 40% e 50% (33 cursos):
Redução de 25% das vagas; - Entre 50% e 60% (45 cursos):
Proibição de aumento de vagas.
As punições permanecerão válidas até a divulgação do próximo Enamed, prevista para outubro de 2026.
Três em cada 10 formandos têm desempenho crítico ou insuficiente
Os dados divulgados pelo MEC revelam um cenário preocupante: três em cada 10 estudantes do último semestre de medicina obtiveram conceito crítico ou insuficiente no Enamed 2025. Dos 39.256 concluintes avaliados, 13.871 estão se formando em faculdades com conceitos 1 e 2, abaixo do patamar mínimo definido pela própria metodologia do ministério.
Para o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Hiran Gallo, os números confirmam um alerta antigo da entidade.
“Quando mais de um terço dos egressos de Medicina obtêm desempenho considerado insuficiente pelo próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São mais de 13 mil graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a medicina. Isso é assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”, afirma.
Expansão desordenada de faculdades privadas preocupa o CFM
O resultado do Enamed mostra que a expansão acelerada de cursos de medicina, especialmente no setor privado, não foi acompanhada por critérios adequados de qualidade, infraestrutura e campo de prática. Das 24 faculdades que receberam nota 1, 17 são privadas. Entre as 83 que ficaram com conceito 2, 72 pertencem à rede particular. Já entre os 49 cursos que alcançaram nota máxima (5), 84% são públicos.
Segundo o CFM, o exame escancara a necessidade de medidas mais rígidas.
“O Enamed cumpre seu papel ao tornar visível uma realidade que o CFM denuncia há mais de 10 anos: a má qualidade do ensino médico vinculada à abertura indiscriminada e desqualificada de escolas sob autorização do MEC”, destaca Gallo.
A entidade defende a aprovação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que tornaria obrigatória a aprovação em uma prova nacional para a concessão do registro médico. Atualmente, segundo o conselho, não há garantias de que apenas profissionais plenamente capacitados ingressem no mercado.
Estados com mais cursos mal avaliados
Entre as instituições com conceitos 1 e 2, São Paulo lidera em números absolutos, com 23 cursos e 3.437 estudantes concluintes. Na sequência aparecem Bahia (12 cursos e 1.396 alunos), Minas Gerais (12 cursos e 1.307 estudantes) e Rio de Janeiro (10 cursos e 1.353 concluintes).
Para o CFM, a segurança da população exige critérios mais rigorosos. A entidade defende que todos os cursos de medicina em funcionamento no país tenham, no mínimo, nota 4, o que representa 75% dos alunos com bom desempenho, conforme a metodologia do MEC.


