Poucas entrevistas podem ser consideradas um marco na carreira de um jornalista. Para Fernando Beteti, uma delas acaba de entrar para essa lista: o jornalista, que há mais de 30 anos se dedica à cobertura de saúde e medicina, entrevistou Louis J. Ignarro, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1998 – a entrevista está disponível no canal Fernando Beteti no Youtube.
O encontro colocou Beteti diante de um dos cientistas que ajudaram a mudar a compreensão da medicina sobre o funcionamento dos vasos sanguíneos. Na conversa, Ignarro falou sobre uma molécula microscópica, mas de enorme importância para o organismo: o óxido nítrico.
A descoberta rendeu a Ignarro o Nobel e também ajudou a abrir caminho para uma das drogas mais conhecidas do mundo: o Viagra.
Mas a entrevista foi muito além da disfunção erétil.
Ao longo da conversa, o cientista explicou a relação entre óxido nítrico, artérias, pressão arterial, exercício físico, alimentação, envelhecimento e até doenças neurológicas. Assista na íntegra:
Nobel de Medicina conta como uma pequena molécula mudou a ciência
O óxido nítrico, conhecido pela sigla NO, é uma molécula gasosa produzida naturalmente pelo organismo. Entre suas funções está a participação na regulação do calibre dos vasos sanguíneos.
Para Ignarro, compreender essa molécula foi fundamental para mudar uma antiga visão sobre as artérias.
Durante a entrevista, ele lembrou que, antes dessas descobertas, muitos pesquisadores enxergavam os vasos praticamente como tubos destinados apenas a transportar o sangue.
“Todos nós pensávamos que nossas artérias e veias eram apenas encanamentos.”
A ciência passou a compreender que o endotélio, camada que reveste internamente os vasos, exerce funções regulatórias importantes. É justamente nesse sistema que o óxido nítrico desempenha um papel fundamental.
“O mais importante é que eu nunca desisto”
Talvez um dos momentos mais marcantes da entrevista tenha sido quando Fernando Beteti perguntou a Ignarro como ele reagiu diante do ceticismo de outros pesquisadores.
A resposta revela uma característica que acompanhou o cientista durante toda a carreira:
“O mais importante é que eu nunca desisto.”
Ignarro contou que teve dificuldades para conseguir financiamento para suas pesquisas. Na época, muitos pesquisadores não acreditavam que o óxido nítrico pudesse ter uma função fisiológica tão importante.
A situação mudou quando sua equipe conseguiu demonstrar que o organismo produzia óxido nítrico e que a molécula exercia efeitos relevantes sobre o sistema cardiovascular.
Anos depois, veio o reconhecimento máximo.
Ao receber a ligação informando que havia sido escolhido para o Nobel, Ignarro contou que sentiu principalmente alívio.
“Minha primeira reação foi de alívio. Agora eu não preciso mais me preocupar com isso.”
A declaração mostra um lado pouco conhecido de uma das maiores premiações da ciência: mesmo pesquisadores de enorme prestígio podem passar anos esperando pelo reconhecimento de uma descoberta.
A descoberta que ajudou a explicar o Viagra
Um dos trechos de maior impacto da entrevista foi a explicação sobre a ligação entre a pesquisa de Ignarro e o Viagra.
Segundo o cientista, o óxido nítrico participa do mecanismo responsável pela ereção ao promover a dilatação dos vasos e aumentar o fluxo sanguíneo no tecido erétil.
“O óxido nítrico é um vasodilatador. Ele é liberado pelos nervos.”
A descoberta ajudou a revelar um caminho para o desenvolvimento de medicamentos contra a disfunção erétil.
A Pfizer posteriormente desenvolveu a sildenafila, comercializada como Viagra, medicamento que atua potencializando essa via fisiológica.
Por causa de sua contribuição científica para a compreensão desse mecanismo, Ignarro passou a ser conhecido popularmente como um dos “pais do Viagra”.
Mas o Nobel fez questão de explicar uma diferença importante: o medicamento não cura a causa subjacente da disfunção vascular.
“O Viagra funciona, mas não cura nenhuma doença.”
Segundo ele, o medicamento potencializa a ação do óxido nítrico disponível, enquanto as causas da disfunção precisam ser investigadas individualmente.
Disfunção erétil pode ser um sinal de alerta vascular
A conversa conduzida por Fernando Beteti também abordou uma questão que pode mudar a maneira como muitos homens enxergam a disfunção erétil.
Para Ignarro, o problema não deve ser analisado exclusivamente sob a perspectiva sexual.
A função erétil depende do funcionamento adequado dos nervos e dos vasos sanguíneos. Por isso, alterações nessa região podem estar relacionadas à chamada disfunção endotelial.
“A disfunção erétil está quase sempre associada à disfunção endotelial.”
A explicação é importante porque as células endoteliais não existem apenas nos vasos do tecido erétil. Elas revestem os vasos de todo o organismo.
Por isso, uma alteração vascular pode ter repercussões muito além da vida sexual.
O hábito que mais prejudica a produção de óxido nítrico
Quando Fernando Beteti perguntou qual seria o comportamento diário mais prejudicial para a produção de óxido nítrico, a resposta de Ignarro foi surpreendentemente simples:
ficar parado.
Para o cientista, o sedentarismo está entre os grandes problemas do estilo de vida moderno.
“A maior causa de deficiência de óxido nítrico seria não movimentar o corpo.”
Ignarro lembrou que o organismo humano evoluiu em um contexto no qual as pessoas precisavam caminhar, correr e se movimentar constantemente.
Hoje, entretanto, muitas horas são passadas sentadas, seja no trabalho, no carro ou em frente às telas.
Por isso, segundo o Nobel, não é necessário ser atleta para cuidar da saúde vascular.
“Você só precisa caminhar todos os dias ou dia sim, dia não.”
Para ele, a frequência é mais importante do que buscar uma intensidade extrema.
Nobel de Medicina dá uma dica simples sobre alimentação
Ignarro também deixou uma orientação bastante fácil de memorizar.
Ao falar sobre frutas e vegetais, perguntou:
“Qual é a cor da sua alimentação?”
O cientista defendeu uma dieta diversificada, com frutas e vegetais de diferentes cores.
Ele destacou frutas vermelhas, como morangos, amoras e framboesas, além de vegetais de folhas verdes escuras.
A lógica apresentada pelo pesquisador é que esses alimentos fornecem compostos antioxidantes que podem ajudar a preservar o óxido nítrico no organismo.
Ele também citou peixes e proteínas com menor quantidade de gordura saturada.
Aos 85 anos, cientista revela como mantém uma rotina ativa
Fernando Beteti também aproveitou a oportunidade para fazer uma pergunta pessoal: qual seria o segredo de Ignarro para chegar aos 85 anos mantendo-se ativo?
A resposta foi coerente com tudo o que o cientista havia defendido durante a entrevista.
Ignarro afirmou que procura praticar aquilo que ensina.
Ele contou que já correu maratonas, mas atualmente prefere atividades como ciclismo e procura permanecer em pé durante boa parte do dia.
Também disse que escolhe cuidadosamente os alimentos que consome.
Na casa dele, segundo o Nobel, o principal óleo utilizado é o azeite de oliva extravirgem.
O futuro da medicina pode estar no cérebro
Se o óxido nítrico já provocou uma revolução na compreensão do sistema cardiovascular, qual será o próximo grande avanço?
Para Ignarro, uma das respostas pode estar no cérebro.
O cientista afirmou que pesquisadores vêm estudando a relação entre alterações no metabolismo do óxido nítrico e doenças neurológicas e neurodegenerativas.
Ele citou Alzheimer, Parkinson e outros distúrbios.
“O próximo avanço virá com a compreensão do óxido nítrico e da função do cérebro.”
Ignarro acredita que os próximos anos poderão trazer avanços importantes nessa área.
O alerta sobre suplementos de arginina e citrulina
A entrevista também abordou um dos assuntos mais populares atualmente: a suplementação.
Ignarro explicou que a arginina participa da produção de óxido nítrico e que a citrulina pode ser convertida em arginina no organismo.
O cientista revelou, inclusive, que utiliza citrulina diariamente.
Ao mesmo tempo, fez uma ressalva para quem compra suplementos: é preciso pesquisar a procedência e as informações sobre os produtos.
Ele também reforçou que suplementos devem complementar uma alimentação adequada, e não substituí-la.
O Nobel não usa enxaguante bucal antisséptico
Um dos momentos mais curiosos da conversa aconteceu quando Fernando Beteti perguntou sobre a relação entre enxaguantes bucais antissépticos e óxido nítrico.
Ignarro afirmou que determinadas bactérias presentes na boca participam da transformação dos nitratos encontrados em alimentos em compostos relacionados à produção de óxido nítrico.
Por isso, segundo ele, produtos antissépticos podem interferir nesse processo.
O próprio cientista contou:
“Eu não uso enxaguante bucal antisséptico.”
Ele disse preferir fazer bochechos com água.
O tema, porém, é específico e ainda deve ser interpretado dentro do contexto da literatura científica e das necessidades individuais de saúde bucal.
Uma entrevista que vai além do Nobel
A conversa entre Fernando Beteti e Louis J. Ignarro revela muito mais do que os bastidores de uma descoberta científica.
Ela mostra como uma hipótese aparentemente improvável pode, décadas depois, transformar a medicina.
O cientista que enfrentou recusas e desconfiança ajudou a revelar o papel do óxido nítrico no organismo e participou de uma descoberta que influenciou a cardiologia, a farmacologia e o tratamento da disfunção erétil.
Ao longo da entrevista, porém, Ignarro deixou uma mensagem que não depende de medicamentos sofisticados.
Movimentar o corpo, alimentar-se adequadamente e cuidar da saúde vascular são, segundo ele, pilares fundamentais para envelhecer melhor.
Para Fernando Beteti, a entrevista representa também um momento especial em mais de três décadas de jornalismo de saúde.
Ao encerrar a conversa, o jornalista destacou justamente a dimensão humana daquela trajetória: um cientista que passou décadas tentando provar a existência e a importância de algo invisível e que acabou transformando a vida de milhões de pessoas.


