Uma medida simples do corpo pode estar relacionada ao risco de desenvolver problemas cardiovasculares e até de morrer precocemente. Um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ) identificou uma associação entre coxas com menor circunferência e maior risco de doenças cardíacas e mortalidade em homens e mulheres.
A pesquisa, realizada com adultos na Dinamarca, ganhou novamente repercussão nas redes sociais por causa de um número que chama a atenção: cerca de 60 centímetros. Os resultados indicaram aumento do risco entre participantes com coxas abaixo de aproximadamente essa medida. Isso, porém, não significa que 60 cm seja um limite médico universal ou que ter coxas finas necessariamente provoque doenças.
O estudo acompanhou 2.816 pessoas, sendo 1.436 homens e 1.380 mulheres, com idades entre 35 e 65 anos. Os participantes foram acompanhados por aproximadamente uma década para ocorrência de doenças cardiovasculares e coronarianas e por cerca de 12 anos e meio em relação às mortes.
Coxas abaixo de 60 cm chamaram atenção dos pesquisadores
Os pesquisadores verificaram uma relação entre menor circunferência da coxa e maior ocorrência de problemas cardiovasculares e morte prematura.
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Um dos principais achados foi a existência de uma espécie de limiar. Para mortalidade geral, o ponto estimado ficou próximo de 62 centímetros tanto para homens quanto para mulheres.
Já para doenças cardiovasculares e coronarianas, os valores não foram exatamente os mesmos para todos os participantes. Entre os homens, o limiar ficou próximo de 56 centímetros. Entre as mulheres, houve variação dependendo do desfecho analisado.
Por esse motivo, os resultados não permitem estabelecer os 60 centímetros como uma “medida ideal” para todas as pessoas. O número funciona melhor como referência do comportamento observado naquela população.
Outro resultado chamou a atenção: acima do limiar identificado, aumentar ainda mais a circunferência da coxa não esteve associado a uma redução proporcional adicional do risco.
Relação permaneceu mesmo após análise de outros fatores
A associação não desapareceu quando os pesquisadores levaram em consideração diversos fatores conhecidos por interferir na saúde cardiovascular.
As análises consideraram características como índice de massa corporal (IMC), circunferência abdominal, percentual de gordura corporal, pressão arterial, colesterol, triglicerídeos, tabagismo e prática de atividade física.
Isso levou os autores a sugerirem que a circunferência da coxa poderia funcionar como mais um marcador relacionado à saúde cardiovascular.
Por que coxas menores poderiam estar relacionadas ao coração?
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores envolve a massa muscular.
Uma circunferência pequena da coxa pode estar relacionada a uma quantidade menor de músculos na região. A musculatura desempenha papel importante no metabolismo, inclusive na utilização da glicose pelo organismo e na sensibilidade à insulina.
Os autores também discutiram a possibilidade de características da gordura localizada nas regiões periféricas do corpo, como pernas e quadris, terem comportamento metabólico diferente daquele observado na gordura visceral, acumulada principalmente na região abdominal.
Essas possíveis explicações, entretanto, não foram comprovadas pelo estudo. Elas ajudam a formular hipóteses para entender a associação encontrada.
Ter coxa fina significa que a pessoa terá doença cardíaca?
Não.
Esse é um cuidado fundamental na interpretação dos resultados. O trabalho é observacional, o que significa que os pesquisadores identificaram uma associação entre duas características, mas não demonstraram que uma seja necessariamente a causa da outra.
Portanto, não é correto afirmar que uma pessoa desenvolverá doença cardiovascular simplesmente porque sua coxa mede menos de 60 centímetros.
Também não há evidência, a partir desse estudo, de que simplesmente aumentar a circunferência das pernas fará o risco cardiovascular cair automaticamente.
Na época da publicação, um editorial do próprio BMJ ressaltou que a associação encontrada era interessante, mas que sua importância clínica ainda precisava ser melhor investigada.
Outros estudos encontraram associação semelhante
A possível relação entre a circunferência da coxa e a saúde também apareceu posteriormente em outras pesquisas.
Um estudo de coorte publicado em 2020 encontrou associação entre menor circunferência da coxa e aumento da mortalidade geral e cardiovascular. Naquela população, cada centímetro adicional na medida esteve associado estatisticamente a uma redução de aproximadamente 4% no risco de morte por todas as causas e de 6% na mortalidade cardiovascular.
Os próprios resultados, entretanto, variaram de acordo com características dos participantes, como o IMC, reforçando que a medida não deve ser interpretada isoladamente.
Medir a coxa não substitui avaliação médica
Apesar de ser uma característica corporal fácil de medir, a circunferência da coxa não deve ser utilizada sozinha para determinar se uma pessoa tem ou não risco elevado de infarto, AVC ou outras doenças cardiovasculares.
Avaliações médicas levam em consideração um conjunto muito mais amplo de informações, como idade, pressão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, histórico familiar, peso, alimentação e atividade física.
Assim, os achados científicos sugerem que a composição corporal e a quantidade de massa muscular podem fornecer informações adicionais sobre a saúde metabólica e cardiovascular, mas não transformam a fita métrica em um exame para prever doenças.


