O avanço do Super El Niño de forte intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027 não deve trazer consequências apenas para o clima. As mudanças nos padrões de chuva e temperatura provocadas pelo fenômeno também podem repercutir diretamente na saúde da população, aumentando condições favoráveis à ocorrência de doenças transmitidas por mosquitos, problemas relacionados ao calor, infecções associadas a enchentes e até transtornos de saúde mental.
O cenário já levou o Ministério da Saúde a preparar o Sistema Único de Saúde (SUS) para os possíveis impactos do El Niño 2026/2027. Em agosto, a pasta apresentou aos secretários estaduais um plano específico de preparação e resposta a emergências em saúde pública relacionadas ao fenômeno. A janela considerada mais crítica pelo governo federal vai de outubro de 2026 a março de 2027.
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A preocupação aumentou à medida que as projeções climáticas passaram a indicar a intensificação do fenômeno. No Paraná, boletim atualizado do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) aponta probabilidade superior a 90% de que o El Niño seja classificado como muito forte entre a primavera e o verão.
Entre outubro e dezembro, segundo o Simepar, há 75% de probabilidade de o fenômeno se tornar o El Niño mais forte registrado desde 1950. O pico é projetado para ocorrer entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, quando a anomalia da temperatura da superfície do Oceano Pacífico na região de referência poderá chegar a 2,9°C acima da média.
Chuva e calor criam cenário de atenção para a saúde
O El Niño não provoca uma determinada doença de maneira direta. O que acontece é que as alterações de temperatura, umidade e precipitação podem modificar as condições ambientais que interferem na transmissão de doenças e na saúde humana.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que o El Niño pode alterar a incidência de doenças transmitidas por vetores, roedores e água. O fenômeno também está relacionado a riscos decorrentes do calor, secas, enchentes, piora da qualidade do ar e problemas de segurança alimentar. A dimensão desses efeitos varia conforme a intensidade do El Niño, a época do ano e as condições de cada região.
Em setembro, a OMS publicou uma nova análise global de saúde pública especificamente sobre o El Niño de 2026, destinada a orientar países na avaliação dos riscos, preparação dos sistemas de saúde e proteção das populações mais vulneráveis.
Para o Sul do Brasil, a situação merece atenção especial por causa da chuva. O Ministério da Saúde trabalha com um cenário de chuvas intensas e risco de inundações na Região Sul, enquanto outras partes do país podem enfrentar seca, queimadas e ondas de calor.
No Paraná, o Simepar prevê maior frequência de períodos de chuva acima da média, inclusive com grandes volumes concentrados em poucos dias. O cenário aumenta o risco de temporais, enxurradas, alagamentos, cheias repentinas e movimentos de massa. Os maiores desvios de precipitação são esperados nas regiões Centro-Sul, Sul, Oeste e Sudoeste do estado.
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Dengue está entre as principais preocupações
Um dos efeitos que mais preocupam as autoridades sanitárias é o possível aumento das arboviroses. Em julho, o Ministério da Saúde alertou estados e municípios para a possibilidade de crescimento da transmissão de doenças como dengue e chikungunya em razão das condições climáticas associadas ao El Niño.
Temperatura, chuva e umidade interferem no ciclo de vida dos mosquitos. A OMS explica que vetores responsáveis por doenças como a dengue são sensíveis às mudanças nessas condições ambientais, que podem modificar a reprodução, o desenvolvimento e a atividade dos insetos.
O problema não está restrito aos locais onde chove mais. Nas áreas atingidas por períodos de estiagem, o armazenamento inadequado de água também pode criar recipientes favoráveis à reprodução do Aedes aegypti.
Projeções desenvolvidas pelo InfoDengue/Fiocruz e divulgadas pelo Ministério da Saúde apontam que o Brasil poderá registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027. A estimativa, no entanto, não significa que esse número necessariamente será alcançado: trata-se de uma projeção epidemiológica baseada em cenários climáticos e que poderá ser atualizada à medida que novas informações forem incorporadas aos modelos.
Enchentes também representam risco
Outra preocupação para estados do Sul é o impacto das chuvas excessivas sobre a qualidade da água e as condições sanitárias. Enchentes e inundações podem comprometer o abastecimento, contaminar água e alimentos e aumentar a exposição da população a agentes infecciosos.
A OMS considera que alterações provocadas pelo El Niño podem modificar os padrões de doenças transmitidas pela água e por roedores, além de afetar a qualidade da água e a própria infraestrutura dos serviços de saúde.
Entre as doenças que exigem atenção após alagamentos está a leptospirose, principalmente pelo contato com água ou lama contaminada pela urina de animais infectados, especialmente roedores.
Os impactos também podem atingir unidades de saúde. Enchentes, tempestades severas e outros desastres são capazes de dificultar o acesso a hospitais e postos, interromper serviços e aumentar repentinamente a demanda por atendimento.
Calor extremo também preocupa
Mesmo em um cenário de chuva acima da média no Sul, períodos de temperaturas elevadas podem ocorrer entre os episódios de precipitação. No Paraná, o Simepar prevê possibilidade de temperaturas acima dos valores climatológicos durante o verão 2026/2027, especialmente nos intervalos entre eventos de chuva.
O calor excessivo pode provocar desidratação, exaustão térmica e insolação, além de sobrecarregar o coração e os rins. Segundo a OMS, temperaturas extremas também podem agravar doenças cardiovasculares e respiratórias, diabetes e algumas condições de saúde mental.
Idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores expostos ao sol e populações socialmente vulneráveis estão entre os grupos que podem sofrer impactos mais severos durante episódios prolongados de calor.
Saúde mental também entra no radar
As consequências do Super El Niño para a saúde não se limitam às doenças infecciosas ou aos efeitos físicos do calor. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) aponta que eventos extremos associados ao fenômeno, como inundações, secas e ondas de calor, também podem afetar o bem-estar físico e mental das populações.
Perda de casas e bens, necessidade de deixar áreas atingidas, interrupção do trabalho, insegurança financeira e medo diante de novos temporais são fatores que podem aumentar o sofrimento psicológico das pessoas afetadas por desastres.
SUS se prepara para o El Niño 2026/2027
Diante das projeções, o Ministério da Saúde colocou em andamento um plano nacional de preparação. A estratégia inclui uma Sala de Situação de Emergências Climáticas, monitoramento da relação entre saúde e clima, disponibilização de medicamentos e insumos emergenciais e atuação da Força Nacional do SUS. Bases regionais da força poderão mobilizar equipes em até 48 horas diante de situações de emergência.
A preparação ocorre porque diferentes partes do Brasil poderão enfrentar problemas distintos. Enquanto o Sul tem como uma das principais ameaças as chuvas intensas e inundações, Norte e Centro-Oeste podem sofrer com seca, estiagem e queimadas. No Nordeste, o cenário inclui possibilidade de agravamento da seca e do calor, enquanto o Sudeste poderá enfrentar ondas de calor e temporais.
Fenômeno pode ter efeitos até 2027
O El Niño já está em andamento, mas os efeitos mais significativos ainda podem estar por vir. O Simepar aponta que, no Paraná, a influência do fenômeno deverá permanecer durante a primavera e o verão 2026/2027 e há possibilidade de reflexos ainda durante o primeiro semestre do próximo ano.
Isso não significa, porém, que necessariamente haverá epidemias, enchentes ou ondas de calor em determinada cidade. O próprio Simepar ressalta que os impactos variam ao longo do evento e que as condições meteorológicas do dia a dia dependem também de frentes frias, sistemas de baixa pressão e outros mecanismos atmosféricos.
Na saúde, a lógica é semelhante: o Super El Niño funciona como um fator capaz de aumentar ou modificar determinados riscos, e não como causa isolada de doenças. Ainda assim, diante da possibilidade de um fenômeno excepcionalmente intenso entre o fim de 2026 e o começo de 2027, autoridades de saúde já trabalham para antecipar os possíveis efeitos antes do período considerado mais crítico.



