Há mais de duas décadas, pesquisadores alertam que a finasterida — medicamento amplamente usado no tratamento da calvície — pode estar relacionada a casos de depressão, ansiedade e até suicídio. Uma nova revisão científica reacende o debate e cobra das autoridades de saúde investigações mais profundas sobre os efeitos neuropsicológicos do fármaco. A depressão será um dos temas do 3º CONGRESSO de Práticas Integrativas em SAÚDE MENTAL. Clique aqui para saber mais e se inscrever.
A finasterida age bloqueando a enzima 5α-redutase, responsável por converter a testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), hormônio que, em excesso, causa miniaturização dos folículos capilares e leva à queda de cabelo. O que pouca gente sabe é que esse mesmo bloqueio pode alterar a produção de neuroesteroides, como a alopregnanolona — substância essencial para a regulação do humor e da ansiedade no cérebro.
O que dizem os estudos sobre finasterida e depressão
Diversas pesquisas ao longo dos últimos 20 anos encontraram associação entre o uso da finasterida e o aparecimento de sintomas depressivos, ansiedade, perda de libido e pensamentos suicidas — especialmente em homens jovens que utilizam o medicamento em doses de 1 mg para tratar alopecia androgenética.
Um estudo publicado na revista JAMA Dermatology analisou mais de 2,2 milhões de pacientes e observou que usuários de finasterida apresentavam maior prevalência de sintomas depressivos em comparação a quem não usava o remédio. De acordo com a pesquisa, publicada no Journal of Clinical Psychiatry em 22 de setembro, já existem sinais do problema desde os anos 2000, mas eles foram ignorados por órgãos reguladores e fabricantes.
Além disso, dados da VigiBase — banco internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS) que reúne notificações de reações adversas — indicam um aumento significativo de relatos de ideação suicida em pacientes que tomam finasterida para calvície.
O possível mecanismo: queda nos níveis de alopregnanolona
A hipótese mais aceita na comunidade científica é que a finasterida, ao bloquear a 5α-redutase, reduz a produção de alopregnanolona, um neuroesteroide que modula os receptores GABA no cérebro. Essa substância atua como um “ansiolítico natural”, equilibrando o humor e a resposta ao estresse.
Com menos alopregnanolona disponível, o organismo pode ficar mais vulnerável a transtornos depressivos e ansiosos, o que explicaria os sintomas relatados por parte dos pacientes — mesmo após a interrupção do tratamento, no que vem sendo chamado de síndrome pós-finasterida.
Estudos em modelos animais reforçam essa hipótese: ratos tratados com finasterida apresentaram comportamentos depressivos, apatia e menor resposta a estímulos prazerosos, efeitos associados à queda dos níveis de neuroesteroides no sistema nervoso central.
Órgãos reguladores já reconhecem o risco
Após anos de relatos, as agências reguladoras começaram a reagir. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e o FDA, nos Estados Unidos, atualizaram as bulas da finasterida (tanto de 1 mg quanto de 5 mg) para incluir ideação suicida e alterações de humor como possíveis efeitos adversos.
O Reino Unido deu um passo além e passou a distribuir um cartão de alerta para pacientes, orientando que fiquem atentos a sintomas como tristeza persistente, ansiedade, irritabilidade, perda de interesse e pensamentos autodestrutivos. “Pacientes que perceberem alterações de humor ou pensamentos suicidas devem interromper o uso e procurar ajuda médica imediatamente”, alerta a agência britânica MHRA.
Depressão pode persistir mesmo após parar o medicamento
Um dos pontos mais preocupantes é que, segundo alguns estudos clínicos e relatos de ex-usuários, os sintomas depressivos e sexuais podem persistir mesmo após a suspensão da finasterida. Esse fenômeno, conhecido como síndrome pós-finasterida, ainda é pouco compreendido.
Publicações científicas descrevem casos de disfunção erétil persistente, perda de libido, insônia, ansiedade e ideação suicida meses ou anos após o fim do tratamento. Embora ainda não haja consenso sobre a prevalência real desses casos, a existência desse quadro motivou diversas ações judiciais e petições por mais transparência na bula do medicamento.
O que dizem os especialistas
Especialistas defendem que o uso da finasterida deve ser sempre acompanhado por um médico — de preferência com monitoramento psicológico. Os sintomas costumam surgir de forma gradual. Alguns pacientes relatam apatia, dificuldade de concentração e perda de prazer nas atividades cotidianas. Esses sinais devem ser levados a sério.”
O que fazer se estiver tomando finasterida
- Nunca suspenda o medicamento por conta própria. Converse com o médico que prescreveu.
- Observe sinais emocionais ou sexuais incomuns, como desânimo persistente, perda de libido, irritabilidade ou insônia.
- Busque ajuda psicológica se notar sintomas de depressão. O acompanhamento terapêutico é fundamental para avaliar possíveis impactos mentais.
- Em caso de pensamentos suicidas, procure ajuda imediata:
- CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (ligação gratuita e confidencial)
- Site: www.cvv.org.br




