Uma doadora do Paraná foi convocada para ajudar uma paciente de São Paulo que precisava de uma transfusão com um tipo de sangue extremamente raro. As duas possuem o fenótipo p nulo, uma característica sanguínea identificada em apenas três pessoas no Brasil. A condição exige cuidados especiais, já que transfusões incompatíveis podem provocar reações graves no organismo.
A doadora Solimari Luzia Machado Andrejczuk, de 29 anos, faz parte do Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR) e já era acompanhada pelo Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (Hemepar). Ela foi localizada após uma solicitação de uma agência transfusional vinculada à Fundação Pró-Sangue, em São Paulo.
A convocação ocorreu porque a paciente precisava receber hemácias compatíveis com seu fenótipo sanguíneo. Diante da raridade dessa característica, encontrar um doador adequado pode representar um grande desafio para os serviços de saúde.
“Particularmente, fico muito feliz em poder ajudar, porque, sabendo que é um fenótipo raro, a gente sabe da importância de doar. Conseguimos salvar vidas. Isso é muito, muito gratificante pra mim”, disse Solimari.
O que é o sangue p nulo e por que ele é tão raro?
Embora os tipos sanguíneos A, B, AB e O sejam os mais conhecidos, o sangue humano possui características muito mais complexas. Existem dezenas de sistemas de grupos sanguíneos, determinados pela presença ou ausência de diferentes antígenos na superfície das hemácias, células responsáveis pelo transporte de oxigênio.
O fenótipo p nulo é uma dessas características raríssimas. Pessoas com esse fenótipo não apresentam os antígenos P1 e Pk, pertencentes ao sistema P1PK, nem o antígeno P, do sistema GLOB.
Essa ausência pode levar à formação de um anticorpo chamado anti-PP1Pk, capaz de reagir contra hemácias que apresentem esses antígenos.
Por esse motivo, pessoas com esse perfil sanguíneo precisam de uma avaliação rigorosa antes de receber transfusões. Em determinadas situações, somente bolsas provenientes de doadores com o mesmo fenótipo poderão atender às necessidades do paciente, desde que também cumpram os demais critérios de compatibilidade.
Segundo as informações divulgadas pelo Hemepar, apenas três brasileiros foram identificados com o fenótipo p nulo até o momento.
Por que esse tipo de sangue pode causar reações graves?
A presença do anticorpo anti-PP1Pk representa um risco importante durante transfusões incompatíveis.
Quando o organismo recebe hemácias que contêm antígenos contra os quais possui anticorpos, pode ocorrer uma reação imunológica capaz de destruir essas células.
Esse processo é conhecido como hemólise e pode provocar complicações graves, incluindo o agravamento da anemia.
A farmacêutica Caroline Luise Prochaska, responsável pelo Setor de Imuno-hematologia de pacientes do Hemepar, explica que pessoas com determinados anticorpos não podem receber qualquer bolsa de sangue.
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“Quando o paciente forma anticorpos contra alguns antígenos do sangue não pode mais receber um sangue comum. Ele tem que receber um sangue especial, que não tenha esses antígenos que ele formou anticorpo, porque senão ele tem uma reação transfusional”, explicou Caroline.
No caso do fenótipo p nulo, o anticorpo pode surgir espontaneamente, mesmo em pessoas que nunca receberam uma transfusão anteriormente.
Por isso, a identificação dessas características é fundamental para prevenir complicações e garantir a segurança dos procedimentos.
Como a mulher descobriu que tinha um sangue tão raro?
A característica sanguínea de Solimari foi identificada há alguns anos, durante uma doação de sangue realizada no Hemepar.
Como parte dos procedimentos de segurança, o sangue coletado passou por uma pesquisa de anticorpos irregulares. O exame apontou uma alteração que chamou a atenção dos profissionais.
A amostra foi encaminhada para análises complementares em um laboratório de apoio, onde os testes confirmaram a presença do fenótipo p nulo.
A partir da descoberta, a doadora passou a integrar o Cadastro Nacional de Sangue Raro, sistema que permite localizar pessoas com características sanguíneas incomuns quando surge a necessidade de uma transfusão específica.
A identificação antecipada desses doadores é considerada essencial, especialmente em situações em que um paciente precisa receber sangue com urgência.
Brasil tem mais de 2 mil doadores de sangue raro cadastrados
Criado em 2013, o Cadastro Nacional de Sangue Raro reúne informações de pessoas que apresentam fenótipos sanguíneos pouco frequentes na população.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em outubro de 2026, o sistema conta com 2.032 doadores cadastrados e já contribuiu para o atendimento de mais de 300 pacientes.
Somente no Paraná, o Hemepar identificou 291 doadores com tipos sanguíneos raros registrados no cadastro nacional.
Quando um hospital ou hemocentro não encontra uma bolsa compatível em seu próprio estado, pode recorrer ao sistema para localizar possíveis doadores em outras regiões do país.
Foi esse mecanismo que permitiu encontrar Solimari e convocá-la para atender à paciente de São Paulo.
O Hemepar também realiza exames de fenotipagem, capazes de identificar antígenos que não são considerados nas classificações sanguíneas mais conhecidas.
Esse trabalho amplia as possibilidades de encontrar sangue compatível para pacientes com necessidades transfusionais específicas.
Existem outros tipos sanguíneos além de A, B, AB e O?
Sim. Os grupos A, B, AB e O fazem parte do sistema ABO, que é apenas um dos sistemas utilizados para classificar o sangue humano.
A classificação mais conhecida considera a presença dos antígenos A e B nas hemácias. Já o fator Rh positivo ou negativo está relacionado à presença ou ausência do antígeno D.
Entretanto, existem diversos outros sistemas, como Kell, Duffy, Kidd, P1PK e GLOB, que também podem influenciar a compatibilidade em transfusões.
Em 2026, a Sociedade Internacional de Transfusão Sanguínea reconhece 49 sistemas de grupos sanguíneos.
A identificação dessas características permite que os serviços de saúde realizem transfusões mais seguras, especialmente em pacientes que possuem anticorpos contra antígenos específicos.
Doação de sangue é fundamental para pacientes com fenótipos raros
O caso da doadora paranaense reforça a importância de manter os estoques de sangue abastecidos e de ampliar a identificação de pessoas com características sanguíneas incomuns.
Segundo a diretora do Hemepar, Vivian Raksa, uma única doação pode beneficiar até quatro pacientes, porque o sangue coletado pode ser separado em diferentes hemocomponentes.
“Precisamos de doadores de todos os tipos sanguíneos e, quando identificamos um fenótipo raro, manter esse vínculo é ainda mais importante. A pessoa pode ser chamada para ajudar um paciente aqui no Paraná ou em outro estado, como aconteceu agora”, destaca Vivian.
Solimari também incentiva outras pessoas a doar sangue e participar dos exames que ajudam a identificar fenótipos raros.
“Eu gostaria de reforçar o pedido para que as pessoas façam a doação de sangue no Hemepar. Se conseguirmos encontrar mais fenótipos raros assim, com certeza vamos ajudar muito mais pessoas”, diz a doadora.
Para os especialistas, quanto maior o número de doadores cadastrados e devidamente avaliados, maiores são as possibilidades de encontrar bolsas compatíveis para pacientes que necessitam de transfusões especiais.
As informações são da AEN


