A gordura no fígado, conhecida como esteatose hepática, é uma condição que pode se desenvolver silenciosamente durante anos, sem provocar sintomas aparentes. O problema está associado a fatores como alimentação inadequada, sedentarismo, excesso de peso e alterações metabólicas. Embora muitas pessoas relacionem as doenças do fígado ao consumo de bebidas alcoólicas, a esteatose também pode atingir quem não bebe e até mesmo quem está dentro do peso considerado ideal.
Em entrevista ao comunicador Fernando Beteti, o médico João Haddad, de Maringá, explicou que hábitos comuns do dia a dia podem contribuir para o acúmulo de gordura no fígado. Entre eles estão o consumo frequente de alimentos ricos em açúcar, bebidas açucaradas, excesso de calorias e a falta de atividade física.
Segundo o especialista, um dos principais desafios é que a doença pode avançar sem que o paciente perceba. Em muitos casos, a alteração só é identificada durante exames de rotina, como a ultrassonografia abdominal.
“Doença silenciosa, a pessoa às vezes vai desenvolvendo isso ao longo dos anos e não precisa sentir nada, ou absolutamente nada”, afirmou Haddad.
Quais hábitos aumentam o risco de gordura no fígado?
A alimentação tem papel importante no desenvolvimento da esteatose hepática, especialmente quando associada ao sedentarismo e a alterações como resistência à insulina, diabetes tipo 2 e obesidade abdominal.
Durante a entrevista, João Haddad destacou que o problema não está necessariamente no consumo isolado de determinado alimento, mas na combinação de hábitos mantidos ao longo do tempo.
O consumo frequente de doces, refrigerantes, sucos açucarados, produtos ultraprocessados e refeições com excesso de calorias pode favorecer o acúmulo de gordura no organismo, inclusive no fígado.
O médico também chamou a atenção para alimentos comuns na rotina dos brasileiros, como pão, arroz, macarrão e sobremesas. No entanto, isso não significa que esses alimentos precisem ser eliminados da alimentação. O risco depende da quantidade consumida, da qualidade geral da dieta e das condições metabólicas de cada pessoa.
Outro ponto abordado foi o consumo de sucos de frutas. Embora possam fornecer vitaminas e outros nutrientes, os sucos geralmente apresentam menos fibras do que as frutas inteiras e podem concentrar quantidades elevadas de açúcares naturais, principalmente quando consumidos em grandes porções.
Por isso, dar preferência às frutas inteiras e à água como bebida habitual pode ajudar a melhorar a qualidade da alimentação.
Sedentarismo também pode favorecer o acúmulo de gordura no fígado
Passar muitas horas sentado, não praticar exercícios físicos e manter uma rotina com pouco movimento são comportamentos que podem aumentar o risco de esteatose hepática.
Segundo João Haddad, a atividade física contribui para melhorar o metabolismo e reduzir fatores associados ao acúmulo de gordura no organismo.
A prática regular de exercícios ajuda a melhorar a sensibilidade à insulina, controlar o peso corporal e reduzir a gordura hepática, inclusive em algumas pessoas que não apresentam perda significativa de peso.
Caminhadas, musculação, bicicleta e outras atividades físicas podem fazer parte da prevenção. O importante é manter a regularidade e escolher exercícios adequados às condições de saúde de cada pessoa.
Pessoas magras também podem ter gordura no fígado?
Sim. Um dos alertas feitos durante a entrevista é que a esteatose hepática não atinge exclusivamente pessoas com sobrepeso ou obesidade.
Indivíduos aparentemente magros também podem apresentar gordura acumulada no fígado, especialmente quando possuem alterações metabólicas, excesso de gordura visceral ou baixa massa muscular.
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Essa condição pode ocorrer em pessoas com índice de massa corporal dentro da faixa considerada normal.
Por isso, a aparência física, isoladamente, não é suficiente para determinar se o fígado está saudável.
O médico ressaltou que pessoas com alimentação inadequada e hábitos sedentários podem desenvolver alterações metabólicas mesmo sem apresentar ganho expressivo de peso.
Gordura no fígado pode ficar anos sem apresentar sintomas
A ausência de sintomas é uma das principais características da esteatose hepática, sobretudo nas fases iniciais.
Durante a entrevista, Haddad explicou que alguns pacientes descobrem o problema depois de anos convivendo com a condição sem saber.
Quando existem manifestações, elas podem incluir cansaço, indisposição e desconforto na parte superior direita do abdômen. Entretanto, esses sintomas são inespecíficos e também podem estar relacionados a diversas outras doenças.
A evolução da esteatose varia de pessoa para pessoa. Em determinados casos, o acúmulo de gordura pode estar associado à inflamação do fígado, formação de cicatrizes, chamada fibrose, e, nos quadros mais avançados, cirrose.
A condição também está relacionada a maior risco de doenças cardiovasculares, especialmente quando acompanhada de diabetes, hipertensão e alterações no colesterol.
Gordura no fígado grau 1 é perigosa?
O diagnóstico de esteatose hepática grau 1 geralmente indica uma alteração leve na quantidade de gordura identificada no exame de imagem. Apesar disso, o resultado não deve ser ignorado.
Segundo João Haddad, mesmo pacientes com alterações iniciais precisam avaliar os fatores de risco e adotar medidas para evitar a progressão da doença.
É importante destacar que o grau de gordura observado no ultrassom não determina, sozinho, a existência de inflamação ou fibrose. A avaliação médica pode incluir exames laboratoriais e métodos específicos para investigar possíveis danos ao fígado.
Entre os exames frequentemente utilizados estão as dosagens de TGO (AST), TGP (ALT) e Gama-GT, além da avaliação de glicemia, hemoglobina glicada e perfil lipídico.
Em determinados casos, também podem ser indicados exames como elastografia hepática e cálculos de risco de fibrose.
Como prevenir e reduzir a gordura no fígado?
A prevenção e o tratamento da esteatose hepática envolvem principalmente mudanças sustentáveis no estilo de vida.
Durante a entrevista, João Haddad destacou a importância de identificar os fatores de risco individuais e estabelecer estratégias adequadas às necessidades de cada paciente.
Entre as principais medidas estão:
- Reduzir o consumo de açúcar e bebidas açucaradas: diminuir refrigerantes, doces e sucos com açúcar adicionado.
- Evitar o excesso de ultraprocessados: priorizar alimentos in natura ou minimamente processados.
- Praticar exercícios físicos regularmente: combinar atividades aeróbicas e exercícios de fortalecimento muscular.
- Controlar o peso corporal: quando existe excesso de peso, a redução gradual pode diminuir a gordura acumulada no fígado.
- Evitar bebidas alcoólicas: o álcool pode agravar danos hepáticos, especialmente em pessoas que já apresentam alterações no órgão.
- Acompanhar doenças metabólicas: manter sob controle diabetes, hipertensão, colesterol e triglicerídeos.
- Realizar acompanhamento médico: investigar possíveis alterações e avaliar a necessidade de tratamento específico.
Em pessoas com sobrepeso ou obesidade, uma redução de aproximadamente 5% do peso corporal já pode ajudar a diminuir a gordura hepática. Perdas maiores, frequentemente entre 7% e 10% ou mais, podem trazer benefícios adicionais para inflamação e fibrose, conforme o quadro clínico.
Gordura no fígado tem cura?
A esteatose hepática pode regredir, especialmente quando identificada precocemente e quando os fatores responsáveis pelo acúmulo de gordura são controlados.
A melhora depende do estágio da doença, da presença de inflamação ou fibrose e da resposta individual às mudanças de hábitos e aos tratamentos indicados.
Durante a entrevista, Haddad ressaltou que não existe uma estratégia única para todos os pacientes. O tratamento deve considerar a alimentação, o nível de atividade física, os resultados dos exames e a presença de outras condições de saúde.
Dietas muito restritivas, jejuns prolongados e suplementos alimentares não devem ser adotados indiscriminadamente. Essas medidas não substituem o acompanhamento médico e podem não ser adequadas para determinadas pessoas.
A principal recomendação é não esperar o aparecimento de sintomas para cuidar da saúde do fígado. A combinação de alimentação equilibrada, atividade física regular e acompanhamento dos fatores metabólicos pode reduzir o risco de desenvolvimento e progressão da esteatose hepática.
Assista a entrevista na íntegra


