As principais sociedades de cardiologia do mundo reformularam a maneira de definir e classificar o infarto do miocárdio. A nova orientação substitui as antigas categorias numéricas por três grandes grupos, organizados conforme a origem do problema: infarto primário, secundário e relacionado a procedimento cardíaco.
A mudança integra a 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, publicada em 28 de agosto de 2026 no periódico científico European Heart Journal. O documento também reforça uma distinção fundamental para o diagnóstico: ter troponina elevada no sangue não significa, necessariamente, que o paciente sofreu um infarto.
O consenso foi elaborado pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela World Heart Federation (WHF). A força-tarefa reuniu especialistas de 12 países, distribuídos por cinco continentes.
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Nova classificação divide o infarto em três grupos
Até agora, os infartos eram classificados como tipos 1, 2, 3, 4a, 4b, 4c e 5. Segundo os autores do novo documento, algumas dessas categorias reuniam condições muito diferentes, dificultando a aplicação uniforme dos critérios no atendimento aos pacientes.
A partir da nova definição, os casos passam a ser classificados em três grupos:
Infarto primário
O infarto primário ocorre espontaneamente, provocado por uma alteração aguda na própria artéria coronária.
A causa mais frequente é a ruptura ou erosão de uma placa de gordura, seguida da formação de um coágulo que bloqueia a circulação. A categoria, porém, também inclui outras alterações nas coronárias, como:
- dissecção espontânea da artéria;
- embolia coronária;
- vasoespasmo;
- trombose tardia de stent;
- reestreitamento da artéria;
- falha tardia de enxerto de uma cirurgia de revascularização.
Na classificação anterior, algumas dessas condições eram incluídas no infarto tipo 2. Agora, passam para o grupo primário porque o problema tem origem diretamente na artéria coronária.
Infarto secundário
O infarto secundário acontece quando outra doença ou condição aguda provoca um desequilíbrio entre a quantidade de oxigênio que chega ao coração e aquela de que o músculo cardíaco necessita.
Isso pode ocorrer, por exemplo, em situações de:
- anemia grave;
- falta de oxigênio no organismo;
- pressão arterial muito baixa;
- hipertensão grave;
- taquicardia intensa;
- aumento excessivo da demanda de oxigênio pelo coração.
Nesse grupo, não existe necessariamente um coágulo bloqueando uma artéria. O coração sofre porque outra condição compromete a oferta de oxigênio ou aumenta excessivamente seu consumo.
A diferenciação é importante porque o tratamento pode mudar. Enquanto um infarto provocado por trombo pode exigir a desobstrução imediata da coronária, no infarto secundário é necessário identificar e controlar a doença que provocou o desequilíbrio.
Infarto relacionado a procedimento cardíaco
A terceira categoria reúne os infartos que surgem como complicação de uma intervenção cardíaca percutânea ou cirúrgica, como angioplastia, colocação de stent ou cirurgia de revascularização do miocárdio.
Pela nova definição, a complicação deve ocorrer em até 30 dias após o procedimento. O diagnóstico passa a valorizar evidências objetivas de comprometimento coronário ou de novo dano ao músculo cardíaco, identificado por exames de imagem.
O documento deixa de depender dos antigos limites fixos de troponina, como valores cinco ou dez vezes superiores ao limite de referência. Isso ocorre porque aumentos expressivos da substância são comuns depois de intervenções cardíacas e nem sempre significam que houve um infarto.
Um estudo citado pelo consenso mostrou que 97,5% dos pacientes submetidos a cirurgia cardíaca tiveram troponina acima de dez vezes o valor de referência. Dessa forma, utilizar apenas essa elevação poderia levar a classificações imprecisas.
Troponina alta não confirma infarto sozinha
A troponina é uma proteína encontrada nas células do músculo cardíaco. Quando essas células sofrem alguma agressão, a substância pode ser liberada na corrente sanguínea.
Por isso, o exame de troponina é um dos principais recursos utilizados na investigação de pessoas com dor ou desconforto no peito. Entretanto, ele identifica a existência de uma lesão no coração, mas não determina sozinho a causa dessa lesão.
De acordo com a nova definição publicada no European Heart Journal, uma lesão cardíaca aguda é caracterizada pela elevação ou queda da troponina em exames realizados em sequência, com pelo menos um resultado acima do limite de referência.
Para confirmar um infarto, porém, os médicos também precisam encontrar evidências de que o dano foi provocado por isquemia — a redução ou interrupção do fluxo de sangue e oxigênio para o coração.
Essas evidências podem incluir:
- sintomas compatíveis com isquemia;
- alterações novas no eletrocardiograma;
- aparecimento de ondas Q patológicas;
- exames de imagem mostrando uma alteração aguda na coronária;
- perda recente de tecido cardíaco viável;
- nova alteração localizada na contração do coração.
Em resumo, a troponina alta indica que houve algum grau de lesão cardíaca. Para que o quadro seja considerado infarto, é necessário demonstrar que essa lesão foi causada pela falta de oxigênio no músculo cardíaco.
Quais doenças podem aumentar a troponina?
Uma série de condições cardíacas e não cardíacas pode elevar a troponina sem que o paciente tenha sofrido um infarto. Entre elas estão:
- miocardite;
- sepse;
- insuficiência cardíaca aguda;
- embolia pulmonar;
- arritmias;
- síndrome de Takotsubo, conhecida como síndrome do coração partido;
- AVC;
- hemorragia subaracnóidea;
- crises epilépticas;
- hipertensão grave;
- rejeição de transplante cardíaco;
- traumatismo no coração;
- efeitos de determinados tratamentos contra o câncer;
- exercícios físicos extenuantes.
Algumas doenças crônicas também podem manter a troponina elevada, como insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar, cardiomiopatias, problemas nas válvulas, cardiopatias congênitas e doença renal crônica.
Isso não significa que o resultado possa ser ignorado. Mesmo quando não confirma um infarto, a troponina elevada pode indicar uma condição grave e exige avaliação para que a origem do dano seja identificada.
Novos limites podem melhorar diagnóstico em mulheres
Outro ponto importante da 5ª Definição Universal é a recomendação de valores de referência de troponina específicos para homens e mulheres.
Segundo o documento, as mulheres geralmente apresentam concentrações menores da proteína. A utilização de um único limite para ambos os sexos pode provocar viés e contribuir para que lesões cardíacas e infartos sejam subdiagnosticados em pacientes do sexo feminino.
A American Heart Association destaca que a utilização de limites específicos pretende melhorar o reconhecimento de infartos e de outras condições cardíacas entre as mulheres.
A nova orientação também desaconselha classificar os sintomas como “típicos” ou “atípicos”. Embora a dor ou o desconforto no peito seja a manifestação mais frequente, algumas pessoas apresentam apenas falta de ar, palpitações, náusea, vômito ou dor na mandíbula, no pescoço, nos braços e nas costas.
Significado de MINOCA também é atualizado
A nova definição modifica ainda o significado da sigla MINOCA. Antes, o termo era usado para designar o “infarto do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas”. Agora, passa a representar uma lesão do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas.
O termo deve ser utilizado como diagnóstico provisório quando uma pessoa apresenta sinais de possível infarto, mas a angiografia não encontra estreitamento igual ou superior a 50% nas coronárias.
Esses pacientes precisam continuar sendo investigados, pois o quadro pode ser provocado por miocardite, síndrome de Takotsubo, embolia pulmonar, dissecção ou espasmo da artéria coronária.
Segundo o consenso, a ressonância magnética cardíaca confirma infarto em cerca de 22% a 27% dos pacientes inicialmente classificados como MINOCA. Nos demais casos, o exame frequentemente identifica outra doença cardíaca ou uma causa externa ao coração.
Infarto com e sem elevação de ST continua existindo
A nova classificação não elimina os termos “infarto com elevação do segmento ST” e “infarto sem elevação do segmento ST”.
Essas denominações continuam sendo utilizadas porque ajudam as equipes médicas a reconhecer pacientes que podem precisar de intervenção imediata para restabelecer o fluxo sanguíneo.
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O que muda é a classificação da causa do evento. Depois da avaliação inicial, o infarto também deverá ser enquadrado como primário, secundário ou relacionado a procedimento.
Mudança pretende tornar tratamento mais preciso
A reorganização não representa apenas uma troca de nomes. A expectativa das entidades responsáveis é que a classificação ajude os profissionais a investigar o mecanismo do infarto e escolher o tratamento adequado para cada paciente.
O documento também incentiva o uso de angiografia, ressonância magnética cardíaca e outros exames de imagem nos casos em que os sintomas, o eletrocardiograma e a troponina não são suficientes para estabelecer a causa da lesão.
A nova definição deverá ser incorporada aos estudos científicos, às estatísticas de saúde pública e aos códigos da 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças, a CID-11.
Quando procurar atendimento
Dor, pressão, aperto ou desconforto no peito, principalmente quando acompanhados de falta de ar, suor frio, náusea ou dor irradiada para braço, mandíbula, pescoço ou costas, exigem atendimento médico imediato.
Algumas pessoas podem apresentar infarto sem dor no peito. Diante de sintomas repentinos ou persistentes, a orientação é acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pelo telefone 192.


